domingo

Quando a Escola é de Vidro

The End



Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...
Eu ia para escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É no vidro!!!!!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada u, não!!!!
Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você estava no segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo à medida que você ia passando de ano. Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E para falar a verdade, ninguém cbia direito. Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim eram confortáveis.
Os muito altos, de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, às vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarraxava a tampa com força que era para não sair mais.
A gente não escutava direita o que os professores diziam, os professores não entendiam o que gente falava...
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos. Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabiam no vidro, se respiravam direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio.
Mas aí a gente já está despreparado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
As meninas coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. Dizem, nem sei se é verdade que muitas meninas usavam os vidros até em casa. E alguns meninos também.
Estes eram mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risadas à toa, uma tristeza!!!!
Se a gente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim, ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro até para dormir, por isso é que tinha uma boa postura.
Uma vez um colega meu disse para a professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum e as crianças podem crescer à vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunista. Ou até coisa pior...
Tinha menino que até tinha que sair da escola porque não havia jeito de se acomodar no vidro. E tinha uns que mesmo quando saiam dos vidros, ficavam do mesmo jeito, meio encolhidos como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mais uma vez, veio para a minha escola um menino diferente e aí não tinha vidro para botar esse menino.. Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir às aulas sem estar dentro do vidro. O engraçado que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, respondia as perguntas mais depressa que os outros... E os professores não gostavam nada disso...Afinal o Firuli podia ser mau exemplo para nós...E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem bom, de pernas esticadas, quando queria, ele se espreguiçava, e até meio gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
- Se o Firuli pode, porque é que nós não podemos?
Mas dona Demência não era sopa. Deu um coque em cada uma, e lá se foram ela, cada uma pro seu vidro...
Já no outro dia as coisas tinham engrossado. Já tinham oito meninos que não queriam saber de entrar dentro do vidro.
Dona Demência, muito irritada, foi chamar seu Hermenegildo que era o Diretor da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
- Aposto que esta rebelião foi fomentada, pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!!!!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar os meninos um por um e enfiar à força dentro dos vidros.
Mas nós estávamos loucos para sir também, e para cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro, já tinha saído dois fora.
E todo mundo começou a correr de seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente e na correria, começamos a derrubar os vidros. E quebramos um vidro, depois outro e outro mais. A dona Demência já estava na janela gritando:
– SOCORRO! VÂNDALOS!BÁRBAROS!!!!
Chame os bombeiros, o Exército da Salvação, a Polícia Feminina...
Os professores das outras classes mandavam cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram à farra que estava na nossa classe, todo mundo ficou assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o Diretor achou melhor mandar todo mundo para casa, que era pra pensar num castigo bem grande para o dia seguinte.
Então, eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria toda de novo.
Então, diante disso, seu Hermenegildo pensou um bocadinho e começou a contar para todo mundo que em outros lugares tinham escolas que não usavam vidros nem nada e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que agora em diante ia se assim: nada de vidros, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca, nem nada, ainda disse timidamente:
- Mas seu Hermenegildo, será que vai dar certo?...
Ele então, não se perturbou:
_ A gente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas...
E foi assim que na minha terra as escolas começaram a mudar!!!!!

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